O aumento contínuo nos custos do trigo vem colocando à prova a capacidade de gestão de moinhos e padarias em todo o país. Diante de uma oferta doméstica restrita e incertezas sobre a qualidade da próxima safra, as empresas do setor optam por comprimir suas margens de lucro para evitar que o reajuste chegue de forma integral ao bolso do consumidor final.
Segundo Paloma Venturelli, presidente do Sinditrigo-PR e CEO do Moinho Globo, os moinhos repassaram, em média, entre 10% e 15% da alta acumulada de custos, mas a necessidade de novos reajustes permanece latente. Com o descompasso na recomposição das margens, alguns moinhos já chegam a reduzir metas de moagem e volume de vendas para evitar comercializar produtos sem rentabilidade.
"Esse repasse tinha que ter acontecido no primeiro semestre e, para algumas empresas, não aconteceu. E agora, que a água chegou no pescoço, está no desespero. Esse é o ano mais desafiador que já vi em 20 anos", afirma Venturelli.
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Incertezas no campo e estoques curtos
Condições climáticas adversas e receios quanto ao teor de proteína e à qualidade do grão fazem com que produtores e cooperativas hesitem em fechar contratos futuros de venda.
Como consequência dessa postura de espera no mercado, grande parte da indústria opera com estoques curtos, suficientes apenas para cobrir a produção até o final de agosto ou setembro.
Impacto na padaria e a estratégia do pão francês
Na ponta final da cadeia, as padarias enfrentam o desafio de absorver a alta da farinha — matéria-prima que representa entre 20% e 30% dos custos totais de um estabelecimento.
Para proteger o fluxo de clientes, o setor adotou uma estratégia de diferenciação entre os produtos vendidos:
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Pão francês: Embora o trigo represente cerca de 70% de sua receita, a tendência é que o reajuste do pão francês seja limitado a cerca de 4%. Por ser o item essencial do café da manhã do brasileiro, um aumento brusco resultaria em perda imediata de demanda.
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Produtos de maior valor agregado: Itens como pizzas, croissants, sanduíches e tortas concentrarão a maior parcela dos repasses. Por possuírem uma margem mais ampla e menor apelo de essencialidade, absorvem reajustes mais altos com menor resistência dos consumidores.
Alex Martins, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (Abip), destaca que o pão francês atua como a principal porta de entrada para os estabelecimentos, atraindo o público que acaba consumindo outros itens das prateleiras.
Ainda assim, a contínua compressão das margens exige rigor extremo na gestão dos estabelecimentos: sem um controle rigoroso de custos, manter a lucratividade no cenário atual tornou-se um dos maiores desafios do setor de panificação.
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