Produto próximo à data de validade, legume com um “machucado”, fruta fora do padrão de tamanho ideal: tudo próprio para consumo, mas não para venda. Com foco em mudar o destino desses alimentos, que era o lixo, uma plataforma tem conectado supermercados a ONGs do Ceará para facilitar a doação deles.
A ferramenta foi criada pela filantech Infineat, uma startup paulista que já atua em Fortaleza há cerca de 2 meses. Nesse período, cerca de 5,3 toneladas de alimentos já foram redirecionadas só na capital cearense – o que equivale a quase 10 mil refeições complementadas.
A plataforma iniciou os trabalhos no Ceará em abril, e já tem 7 supermercados vinculados a 7 organizações não governamentais – que já economizaram cerca de R$ 48 mil com o recebimento das doações, segundo estima a Infineat.
Um dos beneficiados é o Instituto Casa de Gui, no bairro Joaquim Távora, em Fortaleza. A ONG foi criada “no olho do furacão da pandemia” para ofertar atendimento multidisciplinar a crianças, jovens e adultos com deficiência, como explica a fundadora, Cláudia Barreto.

A casa leva o nome do filho dos fundadores, que é autista, e atende, hoje, 200 pacientes de Fortaleza e do interior – enquanto outros 210 aguardam na fila de espera. “Não atendemos mais porque faltam profissionais. Sobrevivemos de doações, é bem desafiador, porque as contas não batem”, frisa Cláudia.
A proposta, como ela explica, é assistir não apenas os pacientes e as famílias, mas também garantir alimentação e condições de trabalho aos profissionais voluntários que atuam na casa – o que exige estrutura e recursos.
Fora as crianças, as famílias e a comunidade, também impactamos a vida dos voluntários. A casa não dá nenhum tipo de salário, mas eles se alimentam aqui, almoçam. E as doações têm ajudado muito.Cláudia BarretoFundadora do Instituto Casa de Gui
Três vezes por semana, a ONG recebe frutas, verduras e legumes que saem das gôndolas de um supermercado de Fortaleza. “Temos um carro grande e meu esposo vai pegar, já tudo organizado e estruturado. As doações impactam vidas”, reforça Cláudia.
A partir dos insumos, a Casa de Gui monta kits de alimentos para as famílias assistidas, incluindo itens que, segundo a fundadora, “algumas vivem em tanta vulnerabilidade que nem conseguiriam ter acesso”.
“E isso gera uma economia financeira muito grande, porque antes nós tínhamos que comprar pra oferecer, era bem mais limitado. São itens importantes para a alimentação”, finaliza.
Combate à insegurança alimentar
Em 2022, o Brasil chegou a uma marca preocupante: 33,1 milhões de pessoas viviam em insegurança alimentar grave, a fome em si, como apontou o II Inquérito de Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19, realizado pela Rede Penssan.
Só na Região Nordeste, 12,1 milhões de habitantes conviviam com a fome no ano passado, e outros 27 milhões se enquadravam em níveis mais baixos de insegurança alimentar, como moderada e leve.
Foi com a “preocupação não só em olhar pra demanda de quem tem fome, mas pra onde dentro do setor de alimentos poderia estar a solução” que Alexandre Vasserman, CEO da Infineat, idealizou a plataforma.
“Surgimos como essa ponte entre as lojas do setor varejista e as instituições, para estabelecer como os alimentos devem ser tratados, redirecioná-los para transformar vidas”, inicia.
“É uma dor grande do setor varejista de como lidar com esse produto. Muitos tiram da gôndola o que não está próprio pra venda e não sabe o que fazer com esse alimento. É uma mudança de cultura”, complementa Alexandre.

A equipe, então, busca supermercados e lojas interessados em participar, insere na plataforma, profissionaliza o processo de doação dos produtos excedentes – por meio de pesagem e embalagem – e seleciona as ONGs para receber os insumos.
“As empresas estão olhando muito mais pras questões de ASG (Ambiental, Social e Governança). Quando pensamos num varejista, ações ambientais são importantes: observamos se ele tem uma responsabilidade com o alimento, se faz uma gestão responsável”, pondera Alexandre.
Segundo o CEO da filantech, a ideia é expandir o alcance da plataforma para outras cidades cearenses, gradualmente. Além do Ceará, a Infineat já atua em estados como São Paulo, Sergipe e Bahia.